terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os sintomas da ausência


Castores constroem suas represas, me disse hoje Rubem Alves, atentando para o  silêncio com que no universo dos animais os ensinamentos se perpetuam, alforriados de vocábulos e sábios. Sua natureza petrificada, encerrada em si mesma e perfeita é incompatível com as experiências de liberdade e originalidade. No entanto, diante do homem e de sua inerente recusa em refletir o passado a fim de tornar-se um artífice de mundos, a genética silencia. Templos, harpas, poemas, tambores, sepultura para os mortos. A falta, a dor da ausência, o suicídio que coloca em cheque o imperativo de sobrevivência. Para o autor, a cultura só é possível no momento em que o corpo cala.
Rubem ressalta ainda que muito embora a tradição filosófica tenha tentado perpetuar a certeza de que somos seres racionais, a cultura sugere uma outra possibilidade: o homem é um ser de desejo. Este emerge enquanto sintoma da insuficiência, da escassez, da ausência. “A saudade só aparece na distancia. A fome só passa a existir quando o homem é privado do pão. O desejo pertence aos seres que se sentem despojados, que não encontram prazer naquilo que o espaço e o tempo lhes oferecem”. Estudos realizados por psicanalistas indicam que a cultura resulta do imperativo humano de cunhar os objetos que deseja, nosso ego tentaria inconscientemente encontrar um mundo em que fosse amado, porém, diante da impotência em localizá-lo, cria tais objetos de amor por intermédio da imaginação e da magia. “Juntam-se assim o amor, o desejo, a imaginação, as mãos e os símbolos para criar um mundo que faça sentido”.
Segundo o autor, cantamos e celebramos esse desejo ainda desencontrado da realidade em preces, rituais, poemas, oferendas. “Onde a cultura fracassa surgem os símbolos, testemunhas das coisas ainda ausentes, saudade do que não nasceu”. É neste terreno que emerge a religião: “a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza”. Camus notou que são parcos os casos de homens que se sacrificam em nome de verdades cientificas, em função da sua frieza e inércia. Do lado oposto estão os símbolos que nos fazem pestanejar, estremecer, estigma da comunhão do homem com o sagrado. Um mundo de imaginação e fantasia, que se debruça sobre o invisível e sobre fatos que ultrapassam nossas experiências prosaicas – na linguagem zen budista seria algo equivalente ao satori: um terceiro olho se abre e diante da iluminação e passa a vislumbrar coisas que os demais não podem contemplar. “O amor se dirige para coisas que ainda não nasceram, ausentes. Vive do desejo e da espera”.
Num mundo que esbraveja a necessidade da subordinação irrestrita à observação, a entrega à embriaguez dos desejos se torna inconcebível.  “Os símbolos respondem a um outro tipo de necessidade, tão poderosa quanto à do sexo e da fome: a necessidade de viver num mundo que faça sentido”. Camus levanta a seriedade que permeia a questão filosófica do suicídio, uma vez que esse diz respeito ao sentido - ou ausência do mesmo, da existência. Questões que encontram serias limitações quando inseridas na esfera puramente material. Pois, é inegável, trata-se de um problema simbólico. “A trágica conclusão das salas de tortura diz respeito ao fato de não ser a dor que desintegra a personalidade, mas a dissolução dos esquemas de sentido”.

Inspirado em: ALVES, Rubem. “Símbolos da Ausência”. In: O que é religião. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991. 14ª edição.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Retrato em quatro atos


Uma balada de encontro e despedida, em memória das madrugadas regadas a jazz e vinho barato, dos amores arrematados em silêncio, do falar baixo, do desejo de pés de lã. Das coisas que caminham breves, brandas, brancas, macias, mansas, leves...

sem título
Por Leandro Franzoni:

De todas as fases
És a mais bela
Eis a maestria que faz
A corporatura da donzela
Que tem o cume tecido
De neves ebenáceas
Que tem o caule rejuvenescido  
Como de lindas orquidáceas
Que tem lábios de carnívoras
Que seduz o beija flor
Que inveja todas as víboras
Porque usufrui todo amor
Em sua áscua, a juventude
Que deixa a pergunta sincera
O que é de tamanha amplitude?
És...primavera

Mas quando a aurora intensifica
Em três meses muda ela
Pois os raios nos indicam
O que é a alma da donzela
Que traz fúria tropicalista
Com sabor de humildade
Pois sua mente socialista
Nos ensina moralidade
É seu calor envolvente
Oprimido por idosos
Que por não serem adolescentes
Desejam-na contagiosos
E em sua praia de ternura
Eu encontrei minhas férias
Pois compartilhei tamanha doçura
Na moça de palavras sérias
És a aura carnavalesca
És pagã de coração
És canto de princesa
Es tu...verão

E quando sopra mais forte
Nas emoções dessa que ama
Ama a fronteira da morte
O coração da bela dama
Que em turbulentos vendavais de amor
Viu a queda das folhas em luto
Mas quando aterravam perdiam a cor
E esperavam um novo fruto
Deixou folhas secas para trás
E traz consigo as verdes
Como os frutos primordiais
Que amadurecem às vezes
Ou são apanhados antes da hora
Mas se esperam demais em vezes
Apodrecem por tal demora
Então cai e vira semente
E sepulta em longo sono
Depois desperta ao ciclo demente
Oh! És outono....

Resfriando o vendaval
Tece o mais longo órgão humano
Com um brilho colossal
Envolta em neve de fim de ano
Que às vezes fica vermelha
Pelos enfeites de natal
Quanto mais branca se assemelha
Porque gela em ti um frio dorsal
Por um medo que tu tenhas
Ou por alguém que tu vês
Que um dia queimou lenhas
No que tanto tu crês
E se ficas amarela
Por um indesejado frio
Que passa na janela
E finges que não viu
Quem é essa neve
Que cobre outras estações
Branca como uma semibreve
Tocada nas ultimas canções
De um compositor italiano?
Quem é você neve louça
Que como um branco terno
Envolve o corpo da moça?
Oh! És tu inverno...

Mais o que é de tal formosura
Juvenecida como a primavera?
Que alma tem a doçura
Do verão de nossa atmosfera?
Que amores têm lamentos
Da estação dos grandes ventos?
Que inverno resplandece
De uma pele que não se esquece?
O que é tão meigo
De beleza exuberante
Que faz com que me sinta leigo
E me deixa ofegante?
És todas as estações
Perdidas em uma ilha
De vulcânicas emoções
És...Marília.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Entre Quatro Paredes

foi a última obra de Sartre a que tive acesso, muitas coisas me levaram a escrever sobre ela nesse momento, mas o essêncial talvez tenha sido o fato de elucidar uma verdade tão escancarada quanto dolorosa: o elemento que permeia a relação entre consciências é o conflito. O filósofo francês, um dos expoentes do existencialismo, apoiou-se sobre a certeza de que a existência está intimamente atrelada ao pensamento que o outro faz de si. Enquanto seres pensantes e pensados, estamos condenados ao privilégio angustiante da liberdade de escolha, isso faz suscitar um sentimento de responsabilidade e angústia. Os personagens de que trata o drama foram condenados ao inferno por abdicarem da liberdade que lhes facultava sua condição humana, lançando mão, cada um a seu modo, de uma forma de alienação. Condenados então à tolerância mútua descobrem o inferno essêncial: uma consciência não pode furtar-se a enfrentar a outra que a denuncia.

O drama data de 1944 e é ambientado em um único cenário com pouquíssimas personagens. Garcin, homem letrado, abandonou o serviço militar sob pretexto pacifista, foi preso e executado. O típico covarde que se refugia na apatia para não enfrentar a verdade. Em vida, torturava a esposa a quem fora incapaz de amar; em morte, tenta destruir Estelle ao sentir-se dependente de seu afeto. Inês, uma lésbica funcionaria dos correios, não lança mão de álibis para justificar seu ódio e sadismo. No inferno, sente certa atração por Estelle, por quem é desprezada. Por fim, Estelle, burguesa que ascendeu socialmente através do casamento e matou a filha, fruto de seu caso com um amante, em nome do conforte e da vaidade. Concebe o infanticídio enquanto obra do destino, busca na paixão uma espécie de entorpecimento a fim de escapar a realidade. Volta-se para Garcin ansiando pela evasão, este se recusa a amá-la na presença de Inês. Tomada pelo ódio planeja assassiná-la e depois se suicidar, mas os mortos só morrem uma vez.  

O inferno onde a trama se desenrola é decorado com apenas com três poltronas e uma estátua de bronze sobre a lareira. Os mortos permanecem enclausurados nesse espaço e sua condenação é a vida em comum – as coisas se desenrolam de tal maneira que a convivência se torna insuportável. São carrascos de si mesmos e dos outros nesse inferno particular, uma vez que, incapazes de expiar suas falhas descobrem o insuportável de sua imagem nos olhos do outro.

Interlúdio: Inquietude, acossar, insaciedade. 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Rememorando: O Cetro e a Bolsa

Seguindo a vertente humanista do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, Jurandir Malerba em um dos capítulos de sua tese de doutorado discute a formação do Estado Nacional brasileiro que, como é sabido, teve como faísca a guerra pela hegemonia política na Europa entre a França de Napoleão e a Inglaterra, conferindo cara às  personagens de que trata. O autor fala sobre a necessidade de saber quem eram os nobres brasileiros e o que pensavam, uma vez que, a concepção de vida dessas pessoas é que demandaria como Estado seria montado por aqui. Resgatei esse assunto, pois, no que diz respeito aos vícios e vicissitudes tão entranhados em nós desde tempos imemoriais, o autor levanta algumas questões que merecem ser pontuadas.
Lançando mão de uma das tendências do romancismo, o título foi elaborado através de uma metafóra interessante: O Cetro e a Bolsa. Os substantivos se referem, respectivamente, ao poder político e ao prestigio engendrado pelo capital, encerrado assim a idéia central do capítulo em questão: o Brasil foi erigido através da fusão entre os que detinham a pompa (cetro) e aqueles que possuiam o dinheiro (bolsa).
É importante ressaltar que D. João era herdadeiro da tradição absolutista, segundo a qual o rei, ungido por Deus, centraliza o poder e é concebido enquanto a alma do reino. Havia também no inconsciente coletivo a certeza de que o pai, personificado pelo rei, deveria acolher, fato esse que justifica, entre outras coisas, os rituais de beija mão, abertura dos palácios e reclamações diretas. Nós somos filhos dessa tradição absolutista, baseada no catolicismo e com forte ênfase na hierarquia e isso explica o arcabouço de costumes segundo os quais nos orientamos.  Não ocasionalmente, na sociedade norte americana construída sob a égide do protestantismo, este caracterizado por fomentar a concepção de indivíduo e, conseqüentemente, a impessoalidade, há a separação absoluta entre público e privado. O povo brasileiro, ao contrário, é autoritário, personalista e respira politicamente essa cultura através de abraços e programas como o Bolsa Família.
Malerba atenta ainda para a necessidade de (re)conhecer a cultura e o caráter da monarquia lusa para entender como as coisas se desenharam por aqui. Muito se fala que para sustentar sua corte D. João adotou uma política exagerada de distribuição de títulos em função de satisfazer seus interesses, empreitada essa bastante recorrente em Portugal. Segundo o autor o que houve com a chegada da família real foi um exagero, não uma invenção. Contrariando a historiografia oficial, no que diz respeito à construção do Estado Nacional brasileiro, enfatiza que quem se uniu a corte lusitana não foram os aristocratas, mas os comerciantes de escravos, chamados homens de grosso trato. E foram esses os homens que viraram barões. A hipótese que talvez justifique a fusão que não aconteceu entre o rei e os latifundiários diz respeito ao fato de que os últimos já possuíam terras e ocupavam os principais cargos públicos, assim, a presença da corte teria gerado um certo desconforto e sensação de desprestígio.
O Estado Nacional brasileiro trouxe em seu bojo e alicerce a aliança entre parasitas migrados e pessoas enriquecidas com o comércio de escravos e outras atividades insalubres, que ansiavam por ascensão política. A chegada do rei possibilitou a essa gente a oportunidade de adquirir prestígio. Por outro lado, aqueles que monopolizavam o cetro e careciam da bolsa... O pilar do nosso Estado? Interesse. Pessoas ávidas por se aproximarem do poder a fim de ascender e satisfazer aspirações próprias. Parece familiar?
Sem mais.

Inspirado em: MALERBA, J. A Corte no exílio e poder no Brasil às vésperas da Independência.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Diz que fui por aí...


''As pessoas voltam a ser bebês quando ficam muito velhas?''

A pergunta foi feita por um menino suiço de cinco anos.
Todos os dias, guiados pela deusa do fogo, viajantes rasgam o véu e cruzam o limiar em busca do altar sagrado e da ancestralidade. Não param para olhar para trás pois alcançaram o mistério da morte: nada morre.
Talvez o mundo tenha desaprendido a vigília. Quisera eu que me tivessem preparado um rico jantar - lembranças. Saudades não. Quem sabe um cajado para tornar mais fácil e caminhada através das montanhas, o embate com o urso. Encontro, fusão.
Me despeço do vale.

Até um dia.  

sábado, 8 de janeiro de 2011

(re)verso de mim

Di Cavalcanti - Mulher com Chapéu (1940)


Tarde de sábado assim cinzenta e triste, na vitrola tudo é choro de saudade.

Pergunto a um interlocutor invisível
 - E se eu te ficasse eterna?

mansa
dilacerada
ingênua
desconcertante
opaca
fogo
sorte

Interlúdio:

Como se te perdesse, assim te quero
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
 Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
                                                                          Hilda Hilst

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Godot



Bandolim da minha alma
Em breve seriamos
Lago, asa, cadeia e luz

Por que?
Se nós tínhamos um plano
Poeira das marés

Nada retém em mim a espera.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Alcoólicas

Kiki de Montparnasse

O resto era rachadura, chaga exposta
Amor infantil, enlevo sem sêmen
Janelas e espelhos ofertando o além mundo
Um tal de dançar jazz
Com sapatos maiores que os pés


Interlúdio: Hilda Hilst

Alcoólicas I 


É crua a vida. Alça de tripa e metal
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.


Alcoólicas V

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

Sem Ana, Blues

Ouro Preto


Mais uma do Caio para celebrar o término do último relacionamento:

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Inventário do ir-remediável



Por Caio Fernando Abreu: 

Foi de repente que o cigarro queimou os cabelos dele. Levantamos os olhos, nos encaramos tensos, quase em ódio, quase em amor, naquela repressão à beira de alguma coisa que poderia conduzir a qualquer gesto, mesmo ao homicídio. Mas sorrimos, e foi depois que tudo quebrou. Jamais voltamos à entrega mesma de antes e à ausência de solicitações e à aceitação sem barreiras. Foi de um de nós que partiu a morte, ou ela já nascia involuntária como a madrugada por trás dos vidros?

Olha em torno, o vazio do olhar fundindo-se com o vazio da sala. As pessoas, máscaras penduradas em corpos, o colorido das roupas gritando alto como se pudesse emprestar alguma individualidade ao que não era sequer sombra. O ar pesado de fumaça dos cigarros. Aperta nas mãos a caixa de fósforos vazia. Deixara o telefone do bar, o endereço, a hora que estaria ali. Um detalhado roteiro, feito dissesse dissimulado estou esperando, você pode me encontrar. Ah como doía manter-se assim disponível, completamente em branco para a procura. Não consegue fixar-se em nada. As faces inexpressivas, as paredes brancas onde não há sequer quadros, a toalha vermelha da mesa -tudo em ordem atrás da aparente desordem. Uma ordem interna, imutável, solidificada. Quase odeia os risos que brotam súbitos dos cantos. Por que lhe é negada essa possibilidade de entrega ao que está sendo? Por que a espera, se a espera não o cabe mais? Só o ar denso, azulado de cigarros fumados. E o vazio da caixa de fósforos. Examina o relógio, mas não vê as horas, não vê nada. Seu pensamento lateja preso numa imagem determinada. Quase não pode projetá-la para fora de si, concretizá-la em visão. E o vê abrindo lento a porta,investigando em tomo, de repente erguendo as sobrancelhas num gesto de quem reconhece. Então se encaminharia devagarinho até a mesa, vestido de azul -não sabe por que, nunca o viu de azul, não sabe mesmo se existe aquele casaco jogado sobre os ombros. Só vê uma mancha azul e o rosto destacado em indagação. Os olhos. Como se dissessem: fala. Falaria? O quê? A porta se abre, cortando o pensamento. Dobra-se em ânsia, quase vira os copos: uma mulher de verde, nariz grande, ar de psicóloga em busca de material. Vira para a outra mesa, pede um fósforo.

Eu não procurei, não insisti. Contive tudo dentro de mim até que houvesse um movimento qualquer de aceitação. Quando houve, cedi. A sua cabeça pesava no meu braço. Ele estava bêbado? Estava cansado? Eu era apenas um braço onde ele debruçava a sua exaustão? Ele se indagava se eu o recebia como receberia qualquer cansaço humano ou sabia que eu estava tenso, na espreita, dilacerado? Os outros dois dançavam no meio da sala. Não viam ou não queria, ver ou não havia nada para ver? O corpo de Lídia era agudo como uma flecha. Aquele contato era premeditado ou ocasional?
As indagações pesavam sem resposta, e numa lucidez desesperada eu num repente assimilava todos os detalhes, dissecava o que acontecia em torno como se tivesse mil olhos, envelhecia como a noite lá fora, virando madrugada, a luz fraca -eu tudo compreendia, tudo sabia. Menos aquela cabeça pesando no meu braço. Que espécie de busca o levara àquele gesto? Me quebrava por dentro, a cabeça afundando cada vez mais no meu corpo, eu negava, fugia, tenso, o cigarro morto nas mãos, a cinza caindo sobre o tapete.

Eles dançavam há muito tempo, muito tempo. E eu morria. A cabeça dele se movimentava, sua boca esmagava meu braço. Fechei os olhos e afundei os dedos nos seus cabelos.
Ergue-se de um salto ouvindo o toque do telefone. Espreita a secretária levando o fone ao ouvido. Lentamente, acompanha os olhos da secretária vagando em torno, inexpressivos. Depois ela chama por outro nome. Não o seu. O tampo verde da mesa recebe os seus braços e o peso da cabeça. Abre uma gaveta à toa, papéis misturados, envelopes, cartas que não dizem nada, não trazem nada.
Espalma as mãos sobre o teclado da máquina. Bate, leve. Podia escrever um poema. Não. Recusa mesmo essa espécie de alívio. Não quer a cor. Prefere o dilaceramento cada vez mais intenso, mais insolucionado. Precisa sofrer e morrer muitas vezes por dia para sentir-se vivo. Chegara à constatação de que era só, Único, e que devia bastar-se a si mesmo, e justamente por isso precisava de uma outra pessoa. Os grãos de areia nunca se tocam. Mesmo quando juntos há entre eles uma espécie de carapaça que não os deixa tocarem se. Jamais um núcleo toca outro núcleo. A terra é azul, os olhos eram azuis, ele vestiria azul -dentro de muitos azuis concêntricos, ele voltaria a se perder. Um certo prazer em saber-se assim solto, assim perdido entre as coisas, assim contendo um mal-estar que ninguém saberia de quê. O tic-tac das máquinas de escrever. O sol coado pelas persianas. Uma brecha de luz em cima da mesa. A sombra de seu perfil na parede. Amassa várias folhas de papel, joga-as no chão, gesto brusco. Você sabe que vai ser sempre assim. Que essa queda não é a última. Que muitas vezes você vai cair e hesitar no levantar-se, até uma próxima queda. Prefere jogar-se numa atitude que seria teatral, não fosse verdadeira, sentir os espinhos rasgando carne, as pedras entrando no corpo, o rosto espatifado contra o fim desconhecido. Precisa ir até o fundo.Guardou vários dias o perfume dos cabelos dele nos pêlos do próprio braço. Como um adolescente. Agora só vê um braço deserto, a pulseira preta do relógio sublinhando a zona do pulso. A parede em frente cheia de fotografias. Arranca todas, vai picando em pedaços cada vez e cada vez menores. Solta devagar no cesto de lixo. Guarda um entre os dedos. Espia. Num fundo indeciso, resta um olho a observá-lo. Azul.

Foi na segunda vez que sentei no chão. Carlos dormia. Lídia desenhava. O copo estava quase vazio. Foi então que ele sentou perto de mim. As mãos sustentavam a cabeça. A posição devia ser incômoda -o corpo apoiado em meio sobre o assoalho, a cabeça no ar, os pés no ar. Eu tremia? Não. Sentia minhas próprias unhas furando as palmas das mãos, mas meu corpo estava seguro, em riste. O primeiro toque foi dele. As mãos comprimiram minhas pernas. Depois, uma das mãos libertou-se avançando em forma de ternura. Nos seus cabelos, as minhas mãos iam e vinham, adivinhando a tessitura. Era noite, ainda. O ritual já fora cumprido. Puxou-me para si, os nossos corpos opostos no assoalho, duas lanças apontando uma para a outra. E de repente nos ferimos. Com a boca. Senti seus lábios nos meus, os dentes se chocando, as mãos que seguravam meu rosto, investigavam meus traços, eu nascia por dentro, quase gritava, tentávamos desvendar um ao outro, mas não íamos além da tentativa, , que já se fazia angústia em suas mãos como espinhos, subindo por meu corpo inteiro, busca tensa. Não, não era amor, não foi amor. Tudo explodia num plano muito mais alto, muito mais intenso. Nos desvendávamos com a fúria dos que antecipadamente sabem que não vão conseguir jamais.
Alguma coisa morria em mim naquela procura de meta inatingível, desconhecida -e num tempo mesmo algo nascia de repente, puxado não sei de que desvão, de que sombra oculta, de que arca fechada, coberta de poeira, abriam-se portas em mim, janelas quebravam, estilhaços saltavam, pedaços de vidro me cortavam sem piedade, já não via a noite, o dia, o tempo, o espaço onde estávamos, vagávamos no cosmos ou estávamos presos numa esfera conhecida? eu não sabia, eu morria, eu nascia sucessivamente, em desespero, eu compreendia súbito. Não, não era amor. Era terror.

Desce do ônibus, alcança a escada rolante. O dia morre no fim da avenida que se espalha nas nascentes da galeria. Os degraus subindo em lenta ascensão. Vai além deles, corre vencendo a máquina. A rua apinhada de gente e carros. As buzinas em loucura. Os anúncios luminosos começam a acender, indecisos. As luzes dos postes. Atravessa a rua correndo. O automóvel freia. Pessoas param, suspensas, atentas a um acontecimento que quebraria súbito o estático do momento. Junta os livros no chão, alcança a calçada, quase corre, esbarra, vira a esquina, ofega, a subida põe gotas de suor no seu rosto. Entra no edifício. O zelador lê uma fotonovela. Alguma coisa para mim? pergunta. Quê? Alguma coisa para mim. Não pergunta mais, afirma, sabe que tem. Ah sim, uma carta. Estende o envelope pesado de que angústia, de que explicação, de que riso talvez? Olha o remetente, amassa em desalento o apoio que não quer, que não busca, que não espera.
Ninguém me procurou? Não. Ninguém. Aperta o botão do elevador. Pelo corredor vai desabotoando a camisa, tira o paletó, a gravata, afrouxa o cinto. Abre a porta. Espia, os olhos meio estrábicos no medo de ver o bilhete que não existe sobre o assoalho vazio. Joga as roupas numa cadeira. Apóia o corpo na janela. Acende um cigarro. Espia a rua, as pessoas, a noite que se cumpre mais uma vez. Liga o rádio. Não ouve a música. Os olhos se turvam, por dentro uma coisa aperta num jeito de quem estrangula. Não pode gritar. As paredes se dobram, fremem, prenhes de ironia.
Suspira. Exausto.

Não queria, desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteiro na queda para depois restar incompleto, destruído talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morto, mais indefinido -e seria preciso reestruturar verdades, seria preciso ir construindo tUdo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou. Mas o dilaceramento foi só meu, como só meu foi o desespero. Que espécie de coisa o cigarro queimou, além dos cabelos? Sei que foi mais fundo, mais dentro, que nessa ignorada dimensão rompeu alguma coisa que estava em marcha. Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto.

Abre devagar o armário do banheiro. O espelho reflete uma face de barba não feita, olheiras fundas, leve contração nas sobrancelhas. Abre o pacote de lâminas, retira uma, vai amassando aos poucos o papel. Senta na beira da cama, o aço nas mãos.
Examina a cicatriz já antiga, um simples fio no pulso. Aperta.
Sente as pulsações. O frio da lâmina entre os dedos. A cicatriz, lembrança de uma outra queda. Do apartamento ao lado chegam os sons desfeitos de algo que devia ser música. Um vento indeciso de madrugada entra pela janela. Está sentado na cama, corpo nu, pés descalços, costas curvas. A lâmina vibra entre os dedos. Nenhum pensamento. Só espera. Atenção fixa em si mesma. Dobra os ombros, como se chorasse. E não corta. Joga a lâmina pela janela, vai-se curvando para si mesmo. Os braços se cruzam, enlaçam os joelhos, a cabeça afunda entre as pernas. Não chora sequer. No cinzeiro, o cigarro esquecido queima. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso, adensando o ar que se enche de olhos, de mãos, de gestos incompletos, vozes veladas, palavras não formuladas. Sem compreender, vaga entre a fumaça e tomba. Como um cego, vendo apenas para dentro.


Interlúdio:

Varri hoje as folhas secas do outono  passado que esquecemos na varanda. Sim, foi um belo ano. Decidi que não escreverei tua história, transformar aquela-coisa-que-não-sei-como-chamar em crônica seria admitir o vazio e a desesperança, e ainda te reconheço no meu jardim. Rosa murcha, copa cortada. Sorvendo em mim a velha miríade de mentiras de ninar. O resto, como diria Hamlet, é silêncio.